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Este microbook é uma resenha crítica da obra:
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Editora: 12min
No futebol há uma crueldade guardada para o segundo lugar. Enquanto a Copa do Mundo se desenrola, sabemos que no dia dezenove de julho uma seleção vai erguer a taça e a outra vai deixar o mesmo gramado tendo perdido a partida mais importante da vida, e o mundo terá dificuldade para lembrar o nome dela enquanto seu próprio país provavelmente fará uma caça as bruxas para encontrar um culpado, julga-lo e sentencia-lo a lembrança de alguém que acabou com a felicidade da nação. Como foi com Roberto Baggio, Oliver Khan, e até Roberto Carlos. O vencedor entra para história. O vice some dela.
É um destino estranho, porque chegar em segundo lugar entre todos os times do planeta deveria ser uma das maiores conquistas concebíveis. E, na realidade é diferente, raramente vemos alguém falando dessa forma do segundo lugar. A pergunta que este texto persegue é simples e incômoda: por que ser o segundo melhor do mundo dói tanto?
Em 1995, três psicólogos, Victoria Medvec, Scott Madey e Thomas Gilovich, publicaram um estudo que veio a se tornar um clássico. Eles analisaram as reações de medalhistas olímpicos, no instante da prova e no pódio, e notaram um padrão contraintuitivo: os medalhistas de bronze tendiam a parecer mais felizes que os de prata.
A explicação está no que os pesquisadores chamam de pensamento contrafactual, a nossa mania de comparar o que aconteceu com o que poderia ter acontecido. O medalhista de prata olha para cima e pensa "quase fui ouro". O de bronze olha para baixo e pensa "ao menos subi ao pódio". O primeiro mede a distância para a glória. O segundo, a distância para o anonimato.
Convém ser honesto sobre os limites disso. O estudo fala de impressão e de tendência, não de uma sentença. Ninguém pode afirmar, com certeza, o que se passa na cabeça de cada atleta derrotado. Uma replicação de 2021, que usou análise automatizada de expressões faciais em pódios olímpicos de 2000 a 2016, encontrou de novo o mesmo padrão, mas padrão não é lei. Há prata que sorri, vamos chegar nela já já.
No dia vinte e seis de abril de 2026, em Londres, aconteceu algo que a maratona esperou por décadas. Sabastian Sawe cruzou a linha em pouco menos de duas horas, o primeiro homem a fazer isso em uma prova oficial. Onze segundos atrás dele veio Yomif Kejelcha, que também correu abaixo das duas horas, e que disputava ali a sua primeira maratona na vida. Em qualquer outro dia, a marca de Kejelcha teria sido manchete, recorde, vitória. Naquele domingo, foi o segundo lugar.
É a forma mais pura da maldição. Não se trata de ter falhado. Trata-se de ter feito algo histórico no exato instante em que outra pessoa fez algo um pouco mais histórico. O próprio Yomif fez meme sobre o acontecimento "Na minha vez, veio um cara e fez história". O futebol conhece bem essa sensação, e o esporte em geral está cheio dela.
Na Fórmula 1, a diferença entre o primeiro e o segundo já foi de um centésimo de segundo. No Grande Prêmio da Itália de 1971, Peter Gethin venceu Ronnie Peterson por essa fração, a chegada mais apertada da história da categoria. Um centésimo separando o nome que se repete do nome que se esquece.
Há também a sombra longa de um rival. Asafa Powell bateu o recorde mundial dos cem metros rasos duas vezes, chegou a nove segundos e setenta e quatro centésimos, e mesmo assim encerrou a carreira sem um único título individual olímpico ou mundial, eclipsado pela ascensão de Usain Bolt. Vale notar que o próprio Powell costumava atribuir isso menos a Bolt e mais às lesões e à pressão das finais. Esses são alguns dos ingredientes que sedimentam a história do eterno segundo. A vida raramente cabe na moldura que a gente quer dar a ela.
Aqui vale uma pausa, porque a desconfiança em relação às nossas próprias certezas tem uma lição extra a oferecer.
Amos Tversky, parceiro intelectual de Daniel Kahneman, ajudou a fundar boa parte do que sabemos sobre como a mente se atrapalha com o acaso. O livro de Kahneman, Rápido e Devagar, é em grande parte um inventário desses tropeços. Em 1985, Tversky e dois colegas publicaram um estudo famoso argumentando que a "mão quente" do basquete, a ideia de que um jogador embalado tem mais chance de acertar a próxima cesta, era uma ilusão. O embalo, diziam, era a nossa imaginação procurando padrão onde só havia sorte.
Por mais de trinta anos, essa foi a sabedoria oficial. Até que, em 2018, dois economistas, Joshua Miller e Adam Sanjurjo, mostraram na revista Econometrica que o estudo original carregava um viés estatístico escondido, ligado ao comportamento de sequências curtas. Corrigido o viés, o resultado se invertia: havia, sim, evidência de embalo. A intuição do torcedor estava mais certa do que a ciência que a corrigira.
O que isso tem a ver com a prata? Tudo. Mostra que mesmo as conclusões mais elegantes sobre a mente humana merecem ser seguradas com as duas mãos. Quando o segundo colocado diz que o outro estava simplesmente inalcançável naquele dia, talvez não seja desculpa. Talvez seja descrição. E serve de alerta para a própria pesquisa do pódio: ela ilumina uma tendência, não decreta um sofrimento.
Voltemos a Kejelcha, porque ele se recusa a interpretar o papel que a maldição reservou. Depois de correr abaixo das duas horas e perder, disse em entrevista que não estava chateado nem com raiva, e sim muito, muito feliz, porque havia quebrado a barreira das duas horas. O meme que fez, foi em tom de brincadeira, não de amargura. Para ele, os onze segundos não eram um abismo, eram um convite para treinar ainda mais. Não estava tão longe de quebrar esse record de novo, comentou.
Essa é a outra metade da verdade. Ser o segundo melhor do planeta em qualquer coisa é colossal. É estar entre bilhões e perder apenas para uma pessoa. A dor do quase e a grandeza do feito moram no mesmo corpo, ao mesmo tempo, e qual delas fala mais alto depende menos do resultado e mais de para onde o atleta escolhe olhar. É aquela velha história, "não é sobre o que aconteceu, mas sobre como escolhemos lidar com isso".
E então há o futebol, que parece ter sido desenhado para ser o lugar mais cruel de todos com o segundo lugar.
No atletismo, a marca de Kejelcha sobrevive: o tempo dele está nos livros, abaixo de duas horas, para sempre. Na Fórmula 1, Peterson é lembrado justamente pela chegada impossível. O segundo lugar, nesses esportes, deixa um vestígio mensurável, uma prova de excelência que ninguém pode apagar.
No futebol, não. O vice da Copa não deixa marca, não bate recorde, não entra em tabela alguma de honra. Apenas perdeu a última partida. Tente lembrar, sem pensar muito, quem perdeu as 10 últimas finais de Copa do Mundo. É difícil, e não é falha da sua memória. É que esse esporte combinou, em silêncio, que ali o segundo não interessa a ninguém. Não há prata no futebol. Há o campeão, e há todos os outros.
Talvez seja por isso que a final que se aproxima carregue tanto peso. No dia dezenove de julho, vinte e dois jogadores vão dividir o mesmo gramado, e onze deles vão sair dali tendo sido, naquele instante, os segundos melhores do mundo. Em quase qualquer outro esporte, isso seria uma vida inteira de orgulho. No futebol, será só a derrota mais bem guardada da memória de cada um.
Para quem lidera equipes: a forma como um grupo conta a própria história do quase molda o que ele faz no ano seguinte. Um vice pode ser lido como fracasso ou como prova de nível, e a leitura que se escolhe contar tem consequências.
Para quem compete, dentro ou fora do esporte: a régua que você usa para medir o resultado pesa tanto quanto o resultado. O bronze e a prata mostram que o ponto de comparação, e não só o lugar no pódio, decide como a conquista vai pesar.
Para quem só assiste: vale um olhar de respeito para o vice da próxima final. Ele fez algo que quase ninguém no mundo consegue, e terá o azar de fazê-lo no único esporte que finge não ter percebido.
A maldição da prata não é bem uma maldição. É uma maldição de comparação. O atleta que perde por um centésimo ou por onze segundos não fez nada menor do que fizera no dia anterior, quando o mesmo desempenho o teria coroado. O que mudou foi a moldura.
A Copa vai terminar com um campeão e um vice, e a história vai guardar um e dispensar o outro. Mas vale lembrar, enquanto torcemos, que o segundo melhor do mundo continua sendo o segundo melhor do mundo, mesmo quando o esporte decide não ter memória para isso.
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